quarta-feira, 2 de setembro de 2009

dominando a esquecida arte do prazer


'o prazer é o início e o fim de uma vida feliz.' (epícuro)

sim, sim, eu sei, cigarro faz mal e sexo pode ser perigoso. mas uma estranha e perturbadora epidemia parece ter tomado conta do país ultimamente na forma de uma absurda premissa: "se você evitar tudo que é agradável, terá uma vida longa e feliz." mas será possível mesmo encontrar a felicidade numa corrida vertiginosa, num ambiente onde é proibido fumar, de palm pilot na mão, atrás do ideal capitalista? semanas de sessenta horas de trabalho, volumosas carteiras de ações e uma agenda abarrotada de compromissos são realmente a chave para se viver bem? eu acho que não.
nestes últimos anos, o mundo ocidental virou um pastiche caleidoscópico de luzes intensas, manipulações pela mídia, fofocas globais e desesperada competição. as pessoas passam o dia inteiro com os olhos pregados nas telas dos computadores, almoçam nas suas mesas de trabalho, planejam suas programações diárias em aparelhinhos portáteis e marcam "dias de folga" para brincar com os filhos. obsecados com a idéia de ficarmos mais ricos, mais magros, mais bem-sucedidos e, por incrível que pareça, mais jovens, milhões de nós nos privamos todos os dias daquilo que, iludidos, acreditamos estar correndo atrás - viver bem. depois de um longo dia de trabalho, queremos chegar logo em casa e assistir pela televisão aquilo que é conhecido curiosamente como reality shows, só para voltar ao escritório no dia seguinte e discutir as surpreendentes reviravoltas das realidades pré-fabricadas de estranhos, ficando as nossas próprias vidas reduzidas a um segundo plano. esse ritmo febril é às vezes compensado com exercícios físicos cronometrados, dietas sem carboidratos, um espesso copo de suco de clorofila e duas semanas de "férias" cuidadosamente planejadas on-line. felicidade, percebe?
num determinado momento, "viver bem" torna-se um objetivo imaginado num ponto muito distante a que se chega apenas com um esforço psicótico e uma obstinada determinação. como hamsters cafeinados numa roda, começamos a correr, suar, aceitar sacrifícios e entrar em pânico. pode-se perder peso, mas a insatisfação pessoal permanece. a promoção pode ser conquistada, mas as despesas continuam crescendo. e, apesar de todo o nosso sucesso aparente, no íntimo o sentimento de inadequação e o desaprovador sarcasmo dos vizinhos parecem ampliados. alguma coisa estaria errada nesse plano mestre? existe alguma coisa, alguma chave perdida para o reino da felicidade que está sendo esquecida? pode apostar que sim.
ela se chama prazer. e o que aconteceu com o prazer? o dicionário define felicidade como "sentir ou demonstrar prazer ou contentamento". gozar é "ter prazer em". assim, parece que felicidade e gozo têm suas raízes no próprio princípio do prazer, que atualmente se encontra à beira da extinção. e prazer sempre foi a essência do hedonismo, pois a idéia surgiu lá nos tempos da grécia antiga. segundo a maioria das suas definições, hedonismo é considerado um estilo de vida que tem como objetivo máximo o prazer e a felicidade. hedonista é quem busca o prazer e evita a dor acima de tudo.

- manual do hedonista, de michael flocker.

3 comentários:

Meia Lua disse...

Nossa...eu e minha simpática ignorância fomos lendo o texto, nos apaixonando pelas palavras e seus significados e pensando "assim que eu acabar de ler, pesquisarei o que é hedonista"...hehehehe

Amei!

E não só amei como concordo com cada linha, embora pratique pouco mais que algumas palavras do que a intenção do texto sugere...

Flah disse...

Isso é realidade!Quantos de nós escolhemos viver assim?
Todos de nós eu diria.Não se pode generalizar, neste caso...

DiRenan disse...

Chaplin chama isso de "Tempos Modernos", eu chamo de capitalismo bruguês.

"concordo com cada linha, embora pratique pouco mais que algumas palavras do que a intenção do texto sugere..."[2]