domingo, 11 de outubro de 2009

Trancado.

"quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria
do jeito que você queria"
(Alice Ruiz)



toc, toc.

Batem à porta. Não, não abre. Ele fecha os olhos e se enfia embaixo do cobertor, agarra Júlio, o gato.
Espia com um olho por uma fresta aberta por entre cobertores e lençóis.
"Pode ser um ladrão, um assassino, um psicopata que me segue pelas ruas... Não abro, não abro, não..."
Quase sai um grito. Mas ele engole seco o que gritaria. E deita novamente no sofá de veludo vermelho, coberto com os lençóis e cobertores. Júlio, o gato, faz menção de ir até a porta. Ele o segura pelo rabo e diz baixinho: "não pode, Júlio, não pode!"

toc, toc

Os olhos e dentes se cerram tensos. Não sai mais nenhuma respiração audível. As mãos tremem. Ouve passos. Pela fresta entre porta e chão, ele observa uma sombra passeando de lá pra cá, de cá pra lá. A cena o hipnotiza. Olhos estatelados. Testa franzida. Dor de cabeça.... Mil coisas passam pela sua cabeça.
Júlio, o gato, mia.

toc, toc, toc

Ele tenta desviar o olhar, tenta se distrair mexendo nos dedos, nas unhas. Mas mal consegue se mover. Morde o canto dos lábios. Pensa em pular a janela... mas se lembra que mora no décimo terceiro andar.
As pernas não mais o obedecem. Sua frio.

-Caralho, Murilo! A gente vai ficar nessa infantilidade até quando? Abre a porra da porta! Abre!

A boca se abre em espanto. Olhar paralisado. "Eu não acredito. É ele, é ele. É pior que qualquer psicopata, é pior que assaltante, assassino... É ele."

-Eu... eu falei pra você não me procurar, vai embora! Vai... eu to pedindo. Por favor, vai embora!

-Eu quis vir. Eu precisava vir. Eu não consigo ficar o ressto da vida sem olhar pra você, sabendo o mal que te causei. Você sabe, eu já te disse e... Não quero dizer do lado de fora. Abre a porta, Murilo! Abre.

-Quantas vezes eu já abri a porta pra você? Quantos dias e quantas horas você já esteve aqui dentro da minha casa, do meu quarto, dos meus planos, da minha vida? Pra me largar aqui, com essa dor que é só minha, com o Júlio, o gato e com essa porra dessa tarja preta que eu nunca imaginei que tomaria? Eu não te quero mais aqui. Eu não abro mais portas pra você. Você não entra mais aqui...

Silêncio. Suspiros de um lado. Respiração ofegante do outro. Os cobertores continuam sobre a sua cabeça.

-Vai embora. É tudo amor e é muito amor. E eu não quero. Não quero mais que seja amor. Então vai. Vai. Me deixa apagar da cabeça, do corpo toda a nossa história. Vai. Antes que o amor se transforme em ódio. Antes que...

Passos no corredor. Pela fresta entre porta e chão, ele observa os pasos se afastando.

-...eu abra todas as portas e janelas.

2 comentários:

KINHA disse...

Olá
Existem muitos blogs, nessa blogosfera desvairada, mas o seu é especial, com posts inteligentes e belas imagens.Espero sua visita e ficarei muito feliz se me seguires. Assim serei sua seguidora também.
http://amigadamoda.blogspot.com

Ana Luiza disse...

Escreve tão lindamente essa Nati!
Adoro...